A Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia assinaram nesta sexta-feira (7) um pacto de defesa mútua que tem potencial para alterar o equilíbrio geopolítico do Oriente Médio e do Sul da Ásia.
A aliança acontece em um momento de escalada regional. O Irã, em resposta à agressão liderada por Estados Unidos e Israel, tem atacado aliados americanos na região com drones e mísseis balísticos. Os sauditas também enfrentam ameaças de grupos ligados a Teerã, como as milícias islamitas do Iraque e os rebeldes houthis do Iêmen.
Na quinta-feira (6), dezenas de soldados da coalizão que apoia o governo deposto do Iêmen em 2014, com suporte de Riad, morreram em um ataque houthi. Segundo os sauditas, a Guarda Revolucionária do Irã está coordenando os ataques, quebrando o acordo de paz mediado pela China em 2023.
Os detalhes do acordo tríplice são limitados, mas o pacto carrega forte simbolismo em uma região marcada por conflitos desde o ataque do Hamas a Israel em 2023, que gerou uma série de confrontos.
O documento foi assinado em Meca, cidade sagrada do islamismo, reunindo três grandes nações muçulmanas de maioria sunita, mas com diferenças étnicas. O xiismo, ramo minoritário, tem seu centro justamente no Irã.
O premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército do país, Asim Munir, fizeram uma peregrinação em Meca antes da chegada do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Eles foram recebidos pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.
No campo militar, o acordo une o sétimo maior orçamento de defesa do mundo, da Arábia Saudita, ao Paquistão, que possui 170 ogivas nucleares, e à Turquia, com 355 mil soldados, o segundo maior contingente da Otan, atrás apenas dos EUA.
No ano passado, sauditas e paquistaneses já haviam assinado um pacto de defesa mútua que, na prática, tornava o reino uma potência nuclear na região, onde apenas Israel possui a bomba, com cerca de 90 ogivas não assumidas.
Com o acordo, Islamabad enviou 8.000 soldados e um esquadrão de caças para território saudita. Até agora, o Paquistão não retaliou diretamente contra o Irã por ataques pontuais à Arábia Saudita, mas assumiu o papel de principal mediador na crise.
Os três países já mantinham laços na área de defesa. O Paquistão, que travou quatro guerras com a Índia desde a separação em 1947, auxilia os sauditas há décadas e compra equipamento militar turco, assim como Riad. Ainda não está claro se o novo arranjo aborda de forma explícita o componente nuclear.
O anúncio representa um revés para Donald Trump, que pressionava Riad a aceitar um acordo de paz com Israel dentro dos Acordos de Abraão, implementados em seu primeiro mandato e que atraíram Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão. No mês passado, Trump anunciou um pacto de transferência de tecnologia nuclear civil para os sauditas, mas condicionou o acordo a uma normalização com Israel.
Turquia e Paquistão são adversários declarados de Israel, e o pacto reforça uma posição conjunta distante dos planos de Trump. O Paquistão já havia se afastado de Washington após os anos da “guerra ao terror”, aproximando-se da China. Os turcos mantêm uma relação turbulenta com Trump, embora em processo de recomposição.
Politicamente, o pacto é uma vitória para Erdogan, que amplia sua influência na região. Em 2024, ele apoiou o Azerbaijão contra a Armênia em Nagorno-Karabakh e foi peça-chave na queda de Bashar al-Assad na Síria. A instalação de um governo liderado por radicais islâmicos na Síria alarmou Israel, que reafirmou sua posição de potência militar dominante após as guerras decorrentes do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Tel Aviv ocupa uma faixa no território sírio em colaboração com a minoria druza, confrontando os interesses da Turquia. A Rússia, que apoiava Assad, perdeu capacidade de intervir devido ao foco na Guerra da Ucrânia. No Cáucaso, Vladimir Putin viu seu protetorado na Armênia enfraquecer com a derrota militar para os azeris e a paz mediada por Trump.
