Usuários da Farmácia de Alto Custo no Distrito Federal relatam um cenário de filas que podem durar mais de seis horas, sistemas lentos e burocracia na entrega de exames. Os problemas persistem mesmo após dois meses da criação da plataforma Farmácia Digital, voltada para solicitar e renovar pedidos de medicamentos. A Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) orienta a população a fazer agendamento prévio para evitar esperas.
A advogada Beatriz de Seixas, de 29 anos, passou mais de seis horas na fila da unidade da Asa Sul para renovar o cadastro e retirar remédios para alergia e epilepsia. Ela afirma que a espera e a instabilidade no fornecimento são rotineiras. Beatriz aguardava a volta ao estoque da lamotrigina, um antiepiléptico que estava em falta, para retirar o medicamento junto com omalizumabe e clobazam. O problema dela começou em abril, quando deu entrada na solicitação. Ela diz que o prazo de análise de 10 dias não foi cumprido e que o canal de WhatsApp não responde.
A gestora ambiental Graciela Montes Machado, de 46 anos, enfrentou um atraso de quatro horas no atendimento que já estava agendado. Ela busca o hormônio somatropina para o filho, que usa o medicamento desde os 4 anos. Graciela precisou esperar três meses pelo agendamento e refazer exames complexos, o que levou um ano de idas e vindas. Ela reclama que em outros estados o histórico médico foi aceito sem a necessidade de repetir os procedimentos.
O bombeiro civil Erasmo de Sousa Bento, de 49 anos, teve uma experiência diferente. Ele foi à farmácia buscar medicação para a filha, que tem diabetes insípido, e se adaptou ao novo sistema de agendamento. Erasmo avalia as mudanças de forma positiva, especialmente a entrega em domicílio, e diz acreditar que o serviço vai melhorar.
A vendedora Luziana Conceição da Silva Vitória, de 41 anos, aguardava atendimento para garantir o medicamento do filho, que tem epilepsia. Ela conseguiu agendar e foi chamada dentro do horário para retirar o topiramato. Luziana afirma que a entrega em casa pode ajudar na rotina, já que enfrenta dificuldades para deixar o filho com outras pessoas.
O que diz a Secretaria de Saúde
A SES-DF informou que o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) tem três unidades de dispensação: na Asa Sul, em Ceilândia e no Gama. Todas oferecem os mesmos medicamentos. A pasta disse que, dos 302 medicamentos padronizados, 235 estão disponíveis. Os outros 36 estão em processo de aquisição, 24 não têm demanda ou foram descontinuados, e sete foram incorporados recentemente.
A orientação é que os usuários façam agendamento prévio pelo Agenda DF. A diretora de Assistência Farmacêutica, Tatiane Araújo Costa, afirmou que são disponibilizadas 800 vagas por dia para atendimento, sendo 570 para retirada de medicamentos e 230 para renovação de cadastro. As unidades funcionam de segunda a sexta, das 7h às 19h, e aos sábados das 7h ao meio-dia. Aos sábados, o atendimento é por demanda espontânea.
Sobre o cadastro digital, Tatiane explicou que o primeiro passo é reunir os documentos e fazer o pedido pelo CEAF Digital ou pelo telefone 160, opção 3. Depois, o usuário deve acompanhar a solicitação pela plataforma. A partir do segundo mês, basta agendar no Agenda DF ou ligar no 3029-8080 para receber o medicamento em casa. Desde a implementação, mais de 2.200 usuários fizeram solicitações pelo CEAF Digital.
Recomendação do Ministério Público
Em junho, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apontou déficit de profissionais, longas filas e problemas estruturais nas unidades da Asa Sul e Ceilândia. O MPDFT recomendou à SES a implementação do sistema Sismedex e a recomposição do quadro de pessoal, além da reestruturação dos fluxos de atendimento para reduzir o tempo de espera. O prazo de 60 dias para as medidas está próximo do fim.
