O mercado financeiro da Faria Lima, em São Paulo, torce pela desistência da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. A informação foi dada à reportagem por gestores, economistas e CEOs que pediram para não ter seus nomes revelados.
Segundo eles, a preferência do setor, que apoiou Jair Bolsonaro (PL) por sua linha liberal na economia, não se aplica ao filho do ex-presidente. A maioria avalia que Flávio, apesar de competitivo nas pesquisas, não resistirá ao teste nas urnas. A expectativa atual é de vitória de Lula (PT) no segundo turno.
Para esse grupo, a saída de Flávio abriria espaço para candidatos considerados mais estáveis. A dobradinha Ronaldo Caiado-Gilberto Kassab (ambos do PSD) é a preferência que mais cresce, devido ao perfil liberal na economia e à política de segurança pública de Caiado. Os empresários Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) também são bem cotados.
Vários fatores erodiram a imagem de Flávio no mercado. Mentir sobre a proximidade com Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem pediu dinheiro, pesou muito. As contradições ao explicar o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a vida do pai, aprofundaram as desconfianças. Como há um inquérito sobre o caso, há desconforto em apoiar um candidato alvo de investigações.
A percepção é que paira sobre Flávio um “telhado de vidro” que pode quebrar a qualquer momento. O maior temor é que alguma denúncia seja guardada para ser revelada no segundo turno, garantindo a reeleição de Lula.
O setor também vê falta de habilidade política em Flávio para formar alianças. O embate público com a madrasta Michelle Bolsonaro (PL) é descrito como um erro estratégico. Sua candidatura estaria rachando até o PL, já que não fechou apoio do PP, não conseguiu a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como vice e está afastado de figuras estratégicas próximas ao pai, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) — o candidato preferido do setor.
Um erro fundamental, segundo a Faria Lima, foi os Bolsonaro terem preterido Tarcísio em favor de Flávio. O senador Rogério Marinho e Daniella Marques têm circulado pela região apresentando Flávio como único capaz de derrotar Lula, mas sem convencer a audiência.
Diante da fragilidade de Flávio, a análise do cenário político de bancos e gestoras já precifica a vitória de Lula. O Ibovespa está abaixo da máxima, o dólar acima de R$ 5 e os juros futuros em alta. Os títulos do Tesouro estão nos maiores juros desde o governo Dilma Rousseff (PT). As NTNBs (Tesouro IPCA+) oferecem rentabilidade de cerca de 8% mais inflação, e os prefixados estão perto de 15% ao ano.
A dívida pública bruta do país subiu de 69,34% do PIB em agosto de 2016 para 81,1% atualmente. Sem perspectiva de forte ajuste fiscal, o mercado precifica uma taxa Selic anual de 14,75% em quatro anos, acima dos atuais 14,25%. Para a Faria Lima, isso indica continuidade da política econômica vigente, sem ajuste fiscal.
Há ainda a preocupação com as próximas indicações ao STF. Se reeleito, Lula teria outras três indicações, o que lhe daria maioria no plenário. Para outra parte da Faria Lima, a eleição ainda não movimenta o mercado, que está focado na guerra do Irã e seu impacto no preço do petróleo e das commodities.
